Fundamentos 10. A língua da mesa de luz: cena, chase, fade, HTP e LTP
O hardware já vimos. Falta ver as palavras. Abra qualquer programa de iluminação ou fique diante de qualquer mesa e você vai encontrar os mesmos conceitos: cenas, chases, presets, submasters, fade time, blackout. Esse é o jargão profissional comum a toda a indústria: aprenda uma vez e você vai entender o SvetoMaster, a mesa alheia numa casa de show e um vídeo em inglês no YouTube.
Três andares: preset, cena, chase
Quase todo o trabalho com luz se apoia em três níveis. Cada um é montado a partir do anterior.

Preset — um valor guardado de uma única propriedade. Por exemplo, a posição «facho no vocalista», a cor «âmbar quente», o gobo «estrelas». O preset não acende luz sozinho: é um tijolo que você usa na montagem.
Para que serve: se, ao remontar os aparelhos, a posição «no vocalista» mudar, você corrige um preset em vez de cinquenta cenas que usavam essa posição.
Cena (scene, cue, look) — um retrato do estado da luz: quais aparelhos estão acesos, em que cor, apontando para onde. É a unidade básica do show. «Banho azul na abertura», «luz branca na fala do apresentador», «contraluz vermelha no refrão» — tudo isso são cenas.
Chase — uma sequência de cenas ou passos que se substituem em loop num tempo definido. O clássico: quatro refletores acendendo um depois do outro, uma onda correndo. O chase tem velocidade (em BPM ou segundos por passo) e normalmente modos de percurso: para a frente, para trás, vai e volta, aleatório.
Efeito (effect) — um gerador de movimento ou de cor calculado na hora: um círculo para moving heads, uma senoide, um arco-íris distribuído entre os aparelhos. Diferente do chase, em que você define os passos na mão, o efeito é descrito por parâmetros: forma, tamanho, velocidade, defasagem entre aparelhos.
Playlist (cue list, stack) — o roteiro: a lista do que toca e em que ordem ao longo da noite. Você aperta «próximo» e o show passa para o item seguinte. No teatro é a ferramenta principal; para o DJ, o jeito de não ter que pensar no auge da festa.
Como a luz passa de um estado para outro
Fade (tempo de transição) — em quantos segundos a luz vai do estado atual para o novo. Zero é instantâneo; três segundos é macio e gradual. A mesma cena com fade 0 e com fade 5 é percebida de formas completamente diferentes: a primeira é um acento, a segunda é «respiração».
Crossfade — transição gradual entre dois estados, normalmente conduzida à mão: enquanto um apaga, o outro sobe. Nas mesas físicas existe um par de faders A/B para isso.
GO — o comando «próximo item do roteiro». O botão que o operador de teatro aperta a cada deixa.
Controles que existem em qualquer mesa
| Termo | O que faz |
|---|---|
| Grand Master | A intensidade geral do show inteiro de uma vez. Baixar tudo por um segundo: é aqui |
| Submaster | Um fader que controla a intensidade de um grupo de aparelhos ou de uma cena |
| Flash | Botão de flash instantâneo: enquanto você segura, o aparelho ou o grupo vai ao máximo |
| Blackout | Apagar tudo na hora. Botão de emergência e recurso ao mesmo tempo |
| Freeze | Congelar a imagem: tudo fica como está e os efeitos param |
| Solo | Deixar só o que está selecionado e apagar o resto |
| Mute | O contrário: desligar temporariamente o selecionado, sem mexer no resto |
| Blind (modo cego) | Preparar a próxima cena sem mostrá-la no salão |
| TAP | Marcar o tempo com a mão para os chases andarem no ritmo |
Luz e música
Dois mecanismos diferentes que os iniciantes costumam confundir.
BPM (batidas por minuto) — um tempo definido como número. Chases e efeitos andam exatamente nesse tempo. Dá para defini-lo na mão, marcá-lo com o botão TAP ou obtê-lo automaticamente da análise da música.
Reação ao som (sound-to-light) — a luz responde ao volume ou ao grave em tempo real: entrou a batida, saiu o flash. Mais direto e mais «vivo», porém mais grosseiro: reage a qualquer som alto, inclusive a um grito no microfone.
Na prática os dois são combinados: o chase andando firme no BPM mais flashes de acento vindos do grave.
HTP e LTP
O par de siglas mais obscuro para quem começa — e, ao mesmo tempo, uma ideia bem simples.
Imagine: a cena «banho azul» mantém um refletor em 50 % de intensidade. E bem nessa hora você aperta um flash que pede 100 % do mesmo refletor. Para o canal vai um único número — qual?

Existem duas regras para resolver a disputa:
HTP (Highest Takes Precedence, «vence o maior»). Para o canal vai o maior dos valores pedidos. Vale para a intensidade: se a cena pede 50 % e o flash pede 100 %, a luz sobe — lógico, já que luz se soma, não se cancela.
LTP (Latest Takes Precedence, «vence o último»). Para o canal vai o valor que chegou por último. Vale para cor, posição do moving head e gobos: se a cena pede azul e depois você manda vermelho, o aparelho fica vermelho. Ninguém quer uma «média» entre vermelho e azul.
Na prática as duas regras são usadas ao mesmo tempo, em praticamente todo lugar: intensidade por HTP, todo o resto por LTP. Daí vem aquele comportamento sensato que você vai ver todo dia:
- duas cenas com o mesmo aparelho entregam a intensidade da mais forte;
- cor e posição são definidas pelo que você apertou por último;
- para o aparelho parar de obedecer a uma cena antiga é preciso desligá-la, e não «cobri-la» com uma nova.
Grupos: o jeito de não enlouquecer
Quando há mais de uma dúzia de aparelhos, falar com cada um separadamente fica inviável. Por isso eles são reunidos em grupos: «frontal», «contraluz», «moving heads», «lado esquerdo», «bar». O grupo é selecionado com um toque e, a partir daí, você trabalha com ele como se fosse um único aparelho.
Bom hábito: monte os grupos logo depois de posicionar os aparelhos, antes de começar a criar cenas. Cinco minutos no começo economizam uma hora depois.
Resumindo
- O preset guarda uma propriedade, a cena é um retrato do estado, o chase é uma sequência de passos, o efeito é um gerador de movimento, a playlist é uma sequência de chases, cenas e efeitos, e a hiperlista é uma sequência de playlists.
- O fade (tempo de transição) muda a percepção mais do que o próprio conjunto de cenas.
- Grand Master, submaster, flash, blackout, freeze, solo/mute, blind, TAP são os controles padrão de qualquer mesa.
- BPM é o tempo em número; a reação ao som é a resposta à música em tempo real; os dois se combinam.
- HTP: vence o valor maior (intensidade). LTP: vence o último valor (cor, posição, gobo).
- Os grupos de aparelhos são montados antes de começar — isso simplifica muito o controle.
A seguir: saímos da teoria e vamos para a casa de show. A próxima aula é sobre como planejar a luz no ambiente: onde pendurar os aparelhos, quantos são necessários, como calcular canais e carga elétrica e o que é importante saber sobre montagem segura.