Fundamentos 9. Interfaces, universos e saída pela rede (Art-Net e sACN)
O computador não tem conector DMX, então é preciso um tradutor entre o programa e a luz. Vamos ver quais existem, no que diferem e, de quebra, responder à pergunta que cedo ou tarde surge para todo mundo: o que fazer quando os 512 canais acabam.
A interface USB: o «adaptador» entre o notebook e a linha
Uma interface DMX (também chamada de adaptador, controlador ou, na conversa, «pendrive de DMX») é uma caixinha: USB de um lado, conector XLR do outro. O programa entrega a ela o pacote de 512 valores e ela gera o sinal elétrico correto no cabo.

As classes de aparelho que existem no mercado:
| Classe | Particularidades |
|---|---|
| Compatíveis uDMX simples | Baratas, do tamanho de um pendrive. Uma saída, 512 canais. Suficiente para um equipamento pequeno |
| Com chip FTDI (Open DMX e clones) | Também baratas, mas quem gera o sinal é o computador: com o sistema carregado o fluxo pode falhar |
| Com processador próprio (linha Pro) | Fluxo estável independentemente da carga do PC, muitas vezes com isolamento galvânico. Mais caras e mais confiáveis |
| Nós de rede (Art-Net/sACN node) | Ligam-se à rede local em vez da USB; normalmente de 1 a 4 saídas DMX |
O universo: uma linha de 512 canais
Um universo é uma linha DMX inteira, ou seja, os seus 512 canais. Uma interface USB simples = um universo.
Enquanto há poucos aparelhos a questão nem aparece. Vamos contar um equipamento típico:
| Aparelhos | Canais |
|---|---|
| 8 refletores × 7 canais | 56 |
| 4 moving heads spot × 16 canais | 64 |
| 2 estroboscópios × 3 canais | 6 |
| Hazer | 2 |
| Total | 128 de 512 |
Uma folga de quatro vezes: tudo cabe tranquilamente em um universo. Agora pense num clube com barras de pixel: oito barras de 96 canais já são 768 canais, e fisicamente não cabem em uma linha.
Sinais de que você precisa de um segundo universo:
- a soma dos canais de todos os aparelhos passou de 512;
- você tem mais de 32 aparelhos (o limite de uma linha, da aula oito);
- os aparelhos estão bem afastados e puxar cabo entre eles é incômodo;
- parte do equipamento se conecta só pela rede.
Como obter vários universos
Opção 1. Várias interfaces USB. Simples e barato: dois adaptadores, dois universos. A desvantagem é que os cabos de cada um vão para pontas diferentes do salão, e notebooks não têm muitas portas USB.
Opção 2. Uma interface multiporta. Uma única caixa com várias saídas DMX.
Opção 3. Saída pela rede. O computador manda os dados para uma rede local comum, e pelo salão ficam espalhados nós (node): caixinhas Ethernet → DMX. É a solução padrão para casas grandes: um único cabo de rede atravessa o ambiente e os nós ficam onde estão os aparelhos.

Art-Net e sACN: duas línguas para a rede
Os dois protocolos fazem a mesma coisa: transportam pacotes DMX por uma rede de computadores comum. Para o iniciante as diferenças são pequenas, mas vale conhecê-las.
| Art-Net | sACN (E1.31) | |
|---|---|---|
| Idade e difusão | Mais antigo, aceito por quase tudo | Mais novo, padrão em instalações grandes |
| Como envia os dados | Difusão geral ou para um endereço específico | Envio em grupo (multicast) |
| Numeração de universos | Historicamente a partir de 0 | A partir de 1 |
| Carga na rede | Maior ao difundir | Menor: a rede distribui de forma mais inteligente |
O que é preciso saber de rede para funcionar
Aqui não é preciso ser engenheiro de redes — bastam quatro regras.
- Computador e nó precisam estar na mesma sub-rede. Em bom português: os endereços IP deles têm de começar igual, por exemplo
192.168.0.10no notebook e192.168.0.50no nó. Se o nó tiver um endereço do tipo2.0.0.20, dê ao notebook um endereço da mesma série ou reconfigure o nó. - Só rede cabeada. O Wi-Fi para luz pode introduzir atraso e perda de pacotes, o que vira luz aos trancos. Um cabo comum e um switch barato são mais confiáveis. A luz por Wi-Fi tem os seus usos específicos.
- Desative os adaptadores de rede que não usa durante o trabalho e libere o programa no firewall do Windows. Mais da metade dos casos de «a rede está lá, a luz não» é o firewall.
- Não misture a rede da luz com a de trabalho. O ideal é um switch dedicado só à luz: sem tráfego alheio e sem surpresas de outros equipamentos.
DMX sem fio e RDM
O DMX sem fio (W-DMX, CRMX e similares) é um par «transmissor + receptor» por rádio. É insubstituível quando não dá para passar cabo: iluminação no teto, cenário no meio do salão, aparelhos do outro lado do ambiente. O Wi-Fi doméstico comum não atrapalha: são aparelhos à parte, com o seu próprio canal de rádio.
RDM (Remote Device Management) é uma camada sobre o DMX que torna a comunicação de mão dupla: a mesa consegue consultar os aparelhos, saber o modelo, ler a temperatura e, principalmente, definir endereço e modo à distância, sem subir até o aparelho. Funciona pelos mesmos cabos, mas exige suporte tanto dos aparelhos quanto da interface. Na faixa mais barata é raro, então neste curso partimos do princípio de que o endereço é definido na mão.
Resumindo
- A interface é o tradutor entre o computador e a linha DMX; existe em versão USB e de rede.
- Quase toda interface USB precisa de driver; lista de dispositivos vazia quase sempre é isso.
- Um universo é uma linha de 512 canais; some os canais do seu equipamento com antecedência.
- Mais de 512 canais significa várias interfaces, uma interface multiporta ou saída pela rede.
- Art-Net e sACN levam DMX pela rede local; o erro clássico do iniciante é o deslocamento de um na numeração dos universos.
- Rede: só cabeada, mesma sub-rede e sem firewall atrapalhando.
- O RDM permite configurar aparelhos à distância, mas não é aceito por todos.
A seguir: terminamos com o hardware. A próxima aula é sobre as palavras que todas as mesas de luz do mundo falam: cena, chase, preset, fade, submaster, blackout e os misteriosos HTP e LTP. Sem esse vocabulário, a interface de qualquer programa parece um enigma.