Fundamentos 2. Canal e valor: como o aparelho entende o comando

Na primeira aula vimos que pelo cabo DMX correm 512 números e que cada número é um comando na sua própria «faixa». Hoje vamos colocar essa faixa no microscópio. O canal e o seu valor são todo o alfabeto do DMX: não há mais nada nele. Todo o resto que você um dia verá em programas de iluminação são camadas bonitas construídas sobre as duas ideias desta aula.

Canal é um botão

Canal é o controle de um parâmetro de um aparelho. Não do aparelho inteiro, mas de uma única habilidade dele.

Um refletor de preenchimento comum não tem muitas: intensidade geral, vermelho, verde e azul. Ou seja, ocupa quatro canais, um para cada. Um moving head tem bem mais: pan, tilt, intensidade, obturador, disco de cores, disco de gobos, rotação de gobo, prisma, foco, zoom… cada habilidade com o seu canal, e é por isso que os moving heads vêm com 14, 20 ou até 32.

Uma boa analogia é a mesa de som do técnico de áudio: cada parâmetro tem o seu botão. No DMX é igual, só que os botões são virtuais e são exatamente 512 por linha.

⚠️ Daí sai logo uma conclusão prática: canais são um recurso, e ele é finito. Oito moving heads de 16 canais comem 128 dos 512 — e isso ainda é um setup modesto. Como contar e o que fazer quando eles acabam está na aula nove.

O valor: de 0 a 255

Pelo canal não viaja um «liga» nem um «mais um pouco», e sim um número de 0 a 255. Zero é desligado, mínimo, começo do curso. 255 é máximo, totalmente aberto, fim do curso. Tudo o que está no meio são estados intermediários graduais.

Fig. 1 — A escala de um canal DMX: de 0 a 255
Fig. 1 — A escala de um canal DMX: de 0 a 255

Por que 255 e não 100 ou 1000? Porque cada canal do pacote recebe um byte, a menor porção de dados, com exatamente 256 estados: de 0 a 255. É um detalhe técnico, mas vale aceitar como fato, porque ele explica a maior confusão do iniciante.

A confusão: valor não é porcentagem. Os programas costumam mostrar a intensidade em porcentagem, enquanto para o cabo vão os valores «crus». A correspondência é esta:

Porcentagem Valor DMX O que se vê no aparelho
0 % 0 Apagado
25 % 64 Um quarto da intensidade
50 % 128 Metade
75 % 191 Três quartos
100 % 255 Intensidade máxima
💡 Dica: 255 passos parecem muitos, mas em fades muito lentos e longos o olho às vezes percebe os degraus — principalmente em aparelhos baratos. Não é defeito do programa, é o limite de um byte. Como o problema foi resolvido está no fim da aula, na parte sobre 16 bits.

Um canal, várias funções diferentes

Aqui começa o que mais surpreende os iniciantes. Canais são poucos e o aparelho tem muitas habilidades, então os fabricantes economizam: um canal divide a faixa 0–255 em trechos e, em cada trecho, faz uma coisa diferente.

O exemplo clássico é o canal do obturador (o strobo) de um refletor:

Valor O que o aparelho faz
0–7 Obturador fechado — não ilumina nada
8–134 Obturador aberto — luz constante
135–239 Strobo: quanto maior o número, mais rápidos os flashes
240–255 Flashes aleatórios

Ou seja, o mesmo canal é ao mesmo tempo «interruptor» e «regulador da frequência do pisca». O disco de cores (uma faixa estreita por cor), o disco de gobos, o prisma e os programas automáticos internos funcionam de forma parecida.

⚠️ E aqui está o motivo mais comum da frase «o aparelho não funciona». O perfil está carregado, a intensidade no máximo e não há luz — porque o canal do obturador ficou em zero, ou seja, o obturador está fisicamente fechado. Confira sempre o obturador primeiro. Ler tabelas assim é o assunto da aula quatro.

Como ver os canais com os próprios olhos

O jeito mais simples de entender canais é ver todos de uma vez. Todo programa de iluminação tem um modo em que os 512 canais aparecem como faders separados: acesso «cru» à linha, sem aparelhos e sem cenas no meio.

Fig. 2 — Todos os canais da linha como faders: um fader, um canal
Fig. 2 — Todos os canais da linha como faders: um fader, um canal

Esse é também o melhor instrumento de teste: você sobe um canal para 255 e olha o que aconteceu no salão. Reagiu o aparelho certo com o parâmetro certo — endereço e perfil estão em ordem. Reagiu o vizinho — os endereços estão trocados. Não reagiu ninguém — o problema está no cabo, na interface ou no próprio aparelho.

💡 Dica: domine esse truque desde já, porque ele resolve 90 % das situações do tipo «não entendo por que não funciona». Na aula doze vamos montar com ele um roteiro completo de diagnóstico.

Quando 255 degraus são pouco: canais de 16 bits

Há parâmetros para os quais 256 posições são grosseiras demais. O exemplo principal é o pan de um moving head. Se você distribuir 540 graus de curso em 256 passos, cada passo dá cerca de dois graus. A vinte metros isso desloca o facho quase um metro: o movimento lento não parece um deslizar suave, e sim uma sequência de trancos.

A solução é simples: dois canais são dedicados a um mesmo parâmetro. O primeiro é chamado de «grosso» (coarse) e o segundo de «fino» (fine). O grosso move em passos grandes; o fino divide cada um desses passos em outros 256. Juntos dão 256 × 256 = 65 536 posições, e o movimento fica realmente liso.

Uma analogia: sintonizar um rádio antigo, com um botão grande para achar a estação rápido e um pequeno para o ajuste fino.

No manual do aparelho esses canais vêm em pares, mais ou menos assim:

Canal Nome Significado
1 Pan Giro, grosso
2 Pan Fine Giro, ajuste fino
3 Tilt Inclinação, grossa
4 Tilt Fine Inclinação, ajuste fino

Os 16 bits aparecem principalmente em pan e tilt e, com menos frequência, no dimmer (para os fades bem lentos do teatro).

💡 Dica: muitos aparelhos deixam escolher no menu entre modo «8 bits» e «16 bits». O segundo ocupa mais canais, mas entrega suavidade. Se você tem canais sobrando, use 16 bits nos moving heads: a diferença se vê a olho nu.
📍 Como isso aparece no SvetoMaster: os 512 faders ficam no modo «Mesa» — literalmente o acesso direto à linha, aquele mesmo instrumento de teste. Nos outros modos o programa esconde os números atrás de controles compreensíveis: você mexe na intensidade em porcentagem ou escolhe a cor com o mouse, e ele traduz isso para valores de 0 a 255 e distribui pelos canais certos. Os pares «grosso + fino» ele também cuida sozinho — você não vai precisar contar bytes na mão.

Resumindo

  • Canal é um botão para um parâmetro de um aparelho; na linha existem 512 deles.
  • O valor do canal é um número de 0 a 255; 50 % de intensidade é 128, e não 50.
  • Um canal costuma dividir a faixa em trechos e fazer algo diferente em cada um (aberto / strobo / flashes aleatórios).
  • Obturador fechado é a causa mais comum de «o aparelho não acende».
  • Os canais de 16 bits (fine) são um par «grosso + fino» para um parâmetro: 65 536 passos em vez de 256; são eles que deixam o movimento dos moving heads suave.
  • O acesso direto aos canais é a ferramenta número um para testar o equipamento.

A seguir: já sabemos o que é um canal e que número viaja por ele. Falta entender como o comando encontra o aparelho certo — disso cuida o endereço. A próxima aula é sobre endereçamento: como se calcula, como se configura no aparelho e o que acontece no salão quando os endereços se sobrepõem.